Sim, São Paulo aguentaria um Dia Mundial Sem Carro — e com folga. Segundo a Pesquisa Origem e Destino 2023 do Metrô, 46,3% das famílias da Grande São Paulo nem têm automóvel, e o carro responde por cerca de 10,5 milhões das 35,7 milhões de viagens diárias. O que a cidade não aguenta é abrir mão do carro sem ter para onde ir: calçada ruim, ônibus lento e uma malha cicloviária que ainda é fração das ruas.
Amanhã, 22 de setembro, é o Dia Mundial Sem Carro. Em vez de discutir se o paulistano “consegue” largar o volante por 24 horas, vale olhar para os números e perguntar outra coisa: por que o sistema empurra tanta gente para o carro justamente nas viagens curtas, onde a bicicleta elétrica ganha fácil?
Quanto São Paulo depende do carro, de verdade?
Menos do que o trânsito da Marginal Pinheiros faz parecer. Os dados do Relatório Síntese da Pesquisa OD 2023 (Metrô-SP) para a Região Metropolitana mostram:
- 35,7 milhões de viagens por dia em 2023, contra 42 milhões em 2017 — a primeira queda desde que a pesquisa começou, em 1967.
- 10,5 milhões dessas viagens são de automóvel; o resto vai de ônibus, metrô, trem, moto, aplicativo, bicicleta ou a pé.
- 46,3% das famílias não têm carro. Para quase metade da metrópole, todo dia já é dia sem carro.
- A frota de automóveis particulares chegou a 5,02 milhões, alta de 14% em seis anos, enquanto a população cresceu só 2%.
E tem um dado que deveria acender o alerta: em 2023, o transporte individual (carro, moto, táxi e aplicativo) passou a responder por 51,2% das viagens motorizadas, superando o coletivo pela primeira vez na série histórica da pesquisa. O transporte coletivo perdeu 3 milhões de viagens por dia; só os ônibus perderam 2,6 milhões. As viagens de aplicativo subiram 137% e as de moto, 16%.
Por que tanta gente usa o carro para trajetos curtos?
Porque a cidade foi desenhada para isso. A própria Pesquisa OD registra que, em distâncias de até 6 km, o transporte individual predomina; só acima disso o coletivo assume. Nessa faixa cabem trajetos como Vila Mariana–Avenida Paulista ou Mirandópolis–Ibirapuera. É exatamente a faixa em que uma bicicleta elétrica resolve a viagem em menos de meia hora, sem suor e sem vaga para procurar.
O problema não é o paulistano, é o que ele encontra na porta de casa. São Paulo está cheia do que urbanistas chamam, em inglês, de “stroad”, em português “estrua”: a avenida que tenta ser estrada e rua ao mesmo tempo, com carro a 50 km/h, comércio dos dois lados, ponto de ônibus e nenhum lugar seguro para quem pedala. Já explicamos em detalhe por que as estruas tornam as avenidas de São Paulo tão hostis. Com esse desenho, o carro vira a opção “segura” por falta de alternativa — e quem não tem carro paga o preço em tempo e risco.

A bicicleta já está crescendo em São Paulo?
Está, apesar de tudo. A Pesquisa OD 2023 mostra que as viagens de bicicleta subiram 25%, de 377 mil para 472 mil por dia, e cresceram em todas as faixas de renda. E o motivo número um de quem escolhe a bike é justamente a pequena distância (65,4%). Ou seja: onde a viagem é curta, as pessoas já migram sozinhas.
Mas a bicicleta ainda é só 1,3% de todas as viagens da metrópole. E não é por falta de vontade: segundo levantamento da Aliança Bike citado pelo Metrópoles, a capital tem cerca de 737 km de vias cicláveis, o que equivale a apenas 3,7% das ruas e avenidas. É como pedir para alguém trocar de carro para metrô numa cidade com meia dúzia de estações. Você pode conferir os trechos existentes no mapa de infraestrutura cicloviária da CET-SP.
O que um Dia Sem Carro deveria mudar em São Paulo?
Um dia simbólico não muda nada se na quinta-feira tudo volta ao normal. O Dia Mundial Sem Carro só vale se virar política pública permanente:
- Rede cicloviária contínua, que ligue bairros a estações de metrô e trem, sem terminar do nada no meio da estrua.
- Velocidade menor nas avenidas de bairro: é o desenho e a velocidade da via que definem quem sobrevive a uma colisão, não o “jeito” de quem dirige.
- Bicicletário em toda estação, para a e-bike resolver a primeira e a última milha.
- Espaço viário redistribuído: faixa de estacionamento na rua é espaço público entregue ao carro parado.
Nada disso depende de o paulistano “se educar”. Depende de a cidade parar de premiar a escolha mais cara e mais perigosa.
Dá para trocar o carro pela bicicleta elétrica no dia a dia?
Para a maioria das viagens curtas, dá. Uma e-bike legal no Brasil tem assistência até 32 km/h e não paga IPVA, licenciamento nem combustível. A Cyberbikes Centauro GT 2026, por exemplo, tem bateria de 52V 20Ah certificada UL 2271, sensor de torque, suspensão total e bagageiro para até 50 kg — dá para ir ao trabalho, buscar as compras e ainda encarar a subida do bairro. Se você quer planejar a troca por etapas, leia nosso guia completo para trocar o carro pela e-bike em São Paulo.
Perguntas frequentes
Quando é o Dia Mundial Sem Carro?
O Dia Mundial Sem Carro é comemorado em 22 de setembro. A proposta é deixar o carro em casa e usar transporte público, bicicleta ou ir a pé, chamando atenção para o excesso de automóveis nas cidades.
Quantas famílias não têm carro em São Paulo?
Segundo a Pesquisa Origem e Destino 2023 do Metrô, 46,3% das famílias da Região Metropolitana de São Paulo não têm automóvel.
Quantas viagens de bicicleta são feitas por dia em São Paulo?
A Pesquisa OD 2023 registrou 472 mil viagens de bicicleta por dia na Grande São Paulo, alta de 25% sobre 2017, o equivalente a 1,3% de todas as viagens.
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